No outro dia conversava eu com alguém sobre o processo Face Oculta, exprimindo a minha preocupação por alguns aspectos de natureza política que são, para mim, a substância da coisa. Ao que o meu interlocutor, militante bloquista, me provocou dizendo que não compreendia o meu espanto, já que, segundo ele, sou um dos assinantes do Bloco Central. Respondi-lhe aquilo que penso : o Partido Socialista, pela sua história e tradições republicanas, bem pelo facto de ter tido um longo historial de exercício de poder (o que sem o imunizar totalmente o fez desenvolver orgânica e intuitivamente comportamentos antivirais de combate a corrupção), é um dos partidos com uma cultura de poder mais robusta e blindada contra esses fenómenos que minam a saúde da vida pública do país. Ou seja, é dos poucos partidos que, pela sua herança cultural e política, tem autoridade para se julgar traído pelos seus militantes a quem for, comprovadamente, demonstrada culpa em actos de corrupção e tráfico de influência no exercício do poder que o povo lhes conferiu.
E por isso o facto de, até agora, nos arguidos e presumíveis implicados no processo Face Oculta estarem alguns responsáveis socialistas - e independentemente de se vir a verificar a culpa destes - só pode vir a confirmar aquilo que qualquer pessoa com o mínimo de bom senso já sabia: o Partido Socialista, como todos os partidos, movimentos ou pessoas que têm no seu adn a conquista de poder, não é imune ao polvo tentacular da corrupção, do tráfico de influências e de atitudes menos legítimas do controlo do aparelho de Estado.
Não vem senão tangencialmente ao caso mas esclareço: escrevi aqui várias vezes que considero José Sócrates um dos primeiro ministros portugueses mais bem preparados para o exercício das suas funções e que o seu governo anterior, assinaladas as minhas grandes divergências em relação à cultura e, na educação, à gestão do dossier da avaliação dos professores, mereceu a confiança que, através do meu voto, dei ao Partido Socialista para governar. Sou, como muitos e muitos milhares de concidadãos, orgulhosamente co-proprietário de um mil milionésimo avo da primeira maioria absoluta do Partido Socialista e da última maioria relativa. Tudo isso é muito claro para mim e não vejo razão para alterar esta posição por causa daquilo que tem vindo a lume.
Não considero também especialmente surpreendente que alguns adversários e inimigos de José Sócrates, do Governo e do Partido Socialista tentem explorar as fragilidades politicas resultantes deste processo. E muito menos estranho a hostilidade que se instalou nos media em relação ao primeiro-ministro. Não só José Sócrates também tem responsabilidades nisso, os processos que lançou contra jornalistas, independentemente da razão que lhe assistisse, não o tornaram o herói do ano neste sector - e será preciso referir outra vezes o corporativismo da classe? - como também, num meio laboral cada vez mais cerceado por problemas económicos, fizeram com que um jornalismo que já se desacreditava de si mesmo, das suas capacidades, visse ali, na luta contra o governo um vislumbre de recuperação da auto-estima perdida. Não tenhamos ilusões. As nossas instituições, principalmente as morais, estão em ruptura de stock. Toda a nossa vida politica e pública tem vindo a perder, grosseiramente, clareza e qualidade, como a actividade jornalística, bem no centro do vulcão mediático não tem grande capacidade de retroacção sobre os ódios e preconceitos que elabora.
É assim que o cidadão comum acredita tanto na maior parte dos títulos como na coscuvilheira do seu bairro. É preciso perceber que a lama não é só sobre José Socrátes, por muito que a parte que lhe coube tenha sido leolina. Veja-se a suspeição que como uma espada pende sobre a TVi, de pressão aos interesses do Grupo Prisa, da SIC, em relação ao PSD, à Impresa e a Francisco Balsemão, do Semanário Económico, do Público em relação aos seus ódios a José Sócrates serem motivados pelo mau perder de Belmiro, do DN em relação aos negócios de Joaquim de Oliveira e à sua bonomia face ao Governo. Hoje, quando ligamos uma televisão ou descansamos os olhos na banca de jornais, há, independentemente de ser fundada ou não, uma manifesta perda de credibilidade dos meios de comunicação social. E quem fala da comunicação social - é bom de notar que os primeiros a darem um trambolhão foram os políticos, a nossa ideia de politica - fala também, depois do sistema bancário, da magistratura e da investigação criminal. Se olharmos a sociedade onde vivemos hoje, percebemos que ela está gelatinosa, tremendo por todos os lados. Curiosamente são os dois sectores onde a crise é crónica e aguda, a educação e a saúde, que apresentam saldos de credibilidade mais positivos. E isto por circunstâncias conjunturais: a luta dos professores, inchada com a vã glória de ter retirado a maioria absoluta ao Partido Socialista, e a Saúde, unida num combate pandémico onde até agora temos mostrado firmeza e conhecimento, tendo os seus responsáveis, Ana Jorge e Francisco George, um grande respeito e notoriedade na nossa comunidade. É claro que há causas mais profundas já que esta perda de credibilidade também está na queda livre que o real - ao contrário do ficcional - tem, enquanto produto ideológico, no nosso mercado de valores éticos, políticos e sociais.
Quando disse que não vejo razões para alterar a minha posição, só disse metade: a única circunstância em que isso poderia vir a acontecer seria num quadro em que eu pensasse que o Governo e o Partido Socialista não soubessem reagir da melhor forma para restaurar a confiança política dos cidadãos na República e a credibilidade do sistema politico em vigor. E a primeira coisa que é preciso fazer é colocarmo-nos no lado dos cidadãos, pensarmos enquanto cidadãos, sentirmos como cidadãos. A questão das escutas a José Sócrates e a Armando Vara, a questão sobre a legalidade ou não da sua inclusão no processo ou da sua destruição, a questão da própria investigação criminal, são importantes de muitos pontos de vista, mas não são, politicamente, as questões principais.
Também não são o facto de José Sócrates ter ou não algum tipo de informação sobre a TVi, já que sobre esse assunto deu resposta cabal no plenário da AR. Nem nenhum aspecto que abranga a vida privada, pública e política de José Sócrates antes de ter sido eleito primeiro-ministro. Não tem, para mim, nenhuma relevância política (aliás, só o teria se em algum momento deste circo ficasse provado o contrário, a urdidura, a conspiração). É assunto que deve ficar como fonte de preocupação apenas para tribunais, visados e implicados. E para o circo que nos rodeia.
O que é preciso saber, e temos de ter uma grande coragem politica para o perguntar, é se em algum momento aquele comportamento de condicionamento dos meios de comunicação social através dos recursos financeiros públicos (publicidade ou financiamento de instituições públicas) foi realizado. E basta que isso seja perguntado, que isso seja passível de ser uma dúvida, que devamos esperar do Partido Socialista, do seu Governo, que esteja na linha da frente da propositura dos dispositivos e procedimentos técnico-jurídicos de blindagem a esse tipo de comportamentos nas empresas tuteladas pelo Estado.
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