Segunda-feira, 30 de Novembro de 2009

O Tiago Mota Saraiva decidiu responder aqui ao repto que lancei a alguns apoiantes do Bloco e do PCP na blogosfera. Em concreto, no caso do Tiago, perguntei "como pode um partido comunista votar ao lado de uma direita conservadora e neoliberal, a favor de uma medida neoliberal? Como pode, reparem bem, um partido que acredita na luta de classes, votar contra uma central sindical?". E fundamentei a minha posição no facto de o novo Código Contributivo, que a oposição em bloco (PP+PPD+CDU+BE) adiou para as calendas,  combater o trabalho precário, agravando a taxa social única a suportar pelo patronato nesse caso, e desagravando a taxa social única nos contratos a termo certo. Tudo isto sem dificultar a sustentabilidade da segurança social, dado que o agravamento da taxa era de 3 pontos percentuais, enquanto a descida era de 1. A isto responde o Tiago que se trata de uma ilusão minha, que quero acreditar que debaixo de cada pedra calçada socialista está sempre uma praia revolucionária e progressista, enfim, que tendo a olhar com poesia  para a realidade que favorece, diz ele, a flexibilidade e a polivalência.

Infelizmente, este belo trecho de prosa constitui uma não resposta. Em primeiro lugar, porque se há uma coisa que me separa claramente das visões do Tiago e dos seus correligionários, é que eu acredito no progressismo, mas não pela via revolucionária. O socialismo democrático acredita que as conquistas se fazem pela via reformista, conquistando direitos sociais e pugnando por uma crescente justiça social, em respeito pelo Estado de Direito e pela democracia, e não pela via armada. O PCP não tem a mesma cartilha, e usa o seu braço sindical para fazer da rua um lugar de combate político. O direito à manifestação existe e deve ser respeitado. Agora, pretender que o PS queira passar por revolucionário, ou que eu enseje ver algo de revolucionário no PS, não é verdade. É contra o código genético da esquerda democrática. É isso que distingue a esquerda democrática, das demais. Nós lutamos pela justiça social dentro do sistema democrático, e sem praticar políticas de terra queimada. 

 

Em segundo lugar, e quanto ao âmago da questão, eu tenho a esclarecer ao Tiago que a noção de flexibilidade necessitava de ser precisada. Porque a flexibilidade no mercado de trabalho nunca foi causa do PS. Pelo contrário. A famosa descida num ranking de competitividade de uma organização internacional, que Portugal teve este ano, foi imputada por essa organização ao Código do Trabalho que o PS reviu. O Código do Trabalho agora  em vigor, dizia essa organização tornou mais rígido o funcionamento do mercado de trabalho, tornando mais difíceis os ajustamentos das empresas, leia-se despedimentos. As organizações desse tipo tendem para uma certa inclinação neoliberal, à Vitor Bento: achando que se os salários descerem o desemprego se desvanece. Repare bem o Tiago que o mesmo Código que foi bandeira do PCP e do BE contra o PS na campanha eleitoral, é criticado por ter aumentado a segurança do emprego. Melhor atestado do que ser acusado disto por uma organização destas, o governo não podia ter, quanto à sua matriz de esquerda e à sua aposta no emprego estável.

Por outro lado, o Tiago acho que eu vejo no Código Contributivo o que não está lá. Analisemos então:

1. O PCP votou contra um documento que promovia o combate à fraude e evasão contributiva por parte da entidade patronal.

a) através do registo automático das declarações de remuneração oficiosas, sempre as empresas deixem de apresentar declarações com remunerações pagas aos trabalhadores.

b) agravando as contra-ordenações já que estão em vigor datam de 1989 (e, para que o Tiago tenha uma ideia de quão ridículas são, os valores variam entre 7,5€ e 250 €. O PCP votou a favor da manutenção deste status quo.

c) extremamente importante no regime de trabalho por conta de outrem, foi a criação de um rgime de acumulação que equipara o trabalho independente ao trabalho dependente feito para a mesma empresa ou grupo de empresas. Eu não sei se o Tiago conhece a realidade do mundo laboral. Uma coisa é teorizar a partir de uns autores revolucionários, outra é saber o que acontece no terreno. E, caro Tiago, esta medida visa evitar uma prática a que infelizmente estão sujeitos muitos trabalhadores dependentes: tem uma determinada remuneração oficial, mas, para reduzir os custos da empresa com as contribuições para a Segurança Social, a base contributiva é minorada, porque a remuneração total é essa verba oficial, mais outra paga contra apresentação de recibo verde. Ora a opção de englobar as duas classes de remunerações e usá-las como base de de referência contributiva, para o cálculo das prestações, torneava este problema, aumentando a protecção social dos trabalhadores.

Aparentemente o PCP preferiu votar contra as medidas de combate à evasão contributiva, e de protecção social dos trabalhadores. Eu até percebo que o Paulo Portas o tenha feito. Mas, o PCP?? E o BE?? Em que medida é que favoreceram os trabalhadores com o sentido de voto?

Saliento aliás, citando a agência Lusa, as palavras do líder da UGT a respeito da votação parlamentar: "É inadmissível que o Código Contributivo não entre em vigor em Janeiro, como estava previsto, o que vai impedir o reforço das medidas de combate à fraude, por isso os partidos da oposição são coniventes com a fraude e fuga às contribuições para a Segurança Social." O próprio Carvalho da Silva não me pareceu eufórico com a votação....

2. O Código Contributivo combate a precariedade laboral por duas vias:

a) a já referida diferenciação das taxas, favorecendo os contratos sem termo e penalizando os contratos a prazo;

b) outra chaga social passa pelo trabalho dependente disfarçado de independente, a que os trabalhadores têm de se sujeitar. É mais comum em muitos sectores do julga o PCP. Isto são falsos recibos verdes, e há pessoas que permaneceram anos sujeitas a eles, sem o mínimo de segurança quando realizavam efectivamente trabalho dependente: fabril, lectivo, etc. Ora o novo código contributivo,passa parte do custo da protecção social dos trabalhadores independentes para as empresas contratantes (2,5% em 2010; 5% em 2011).

 

Como sabemos, Tiago, a razão pela qual as empresas recorrem a recibos verdes está directamente relacionada com os menores encargos em contribuições para a Segurança Social, e com a maior facilidade em quebrar o vínculo laboral. A proposta do PS tornava menos barato o recurspo pelos empregadores ao recibo verde, ao fazê-los participar da protecção social dos trabalhadores independentes; e tornava-se mais cara a protecção social nos trabalhos a termo certo do que nos contratos sem termo. Pelas duas vias, a precariedade social é combatida.

 

Em síntese, Tiago, isto é uma visão do mundo que procura melhorar as condições de vida dos trabalhadores. Há espera de mudar tudo de uma vez numa utópica revolução, e querendo demarcar a sua diferença, o PCP e o BE votaram contra esses interesses. O João Rodrigues consegue defender que o emprego tem de existir nem que seja o estado a criá-lo. Mas acha normal que o BE tenha votado contra o aumento da protecção dos trabalhos que existem. Onde está a poesia em tudo isto Tiago? Ou tudo o que não for tomar o Palácio de Inverno e decapitar o poder não é defender os trabalhadores?

Em que discordas tu, o Carlos Vidal ou o Luís Raínha destas propostas? Mas com respostas concretas, que melhorem a vida das pessoas. Não com utopias.



publicado por Carlos Santos às 18:02
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3 comentários:
De João Galamba a 30 de Novembro de 2009 às 18:44
Carlos, infelizmente parte da nossa esquerda parece ter abdicado de qualquer agenda reformista pragmática. Como só interessa a utopia, sempre se pode ir sacrificando a realidade. Em nome de uma fantasia errada e irresponsável, criam-se alianças contra-natura com a direita. A última sexta-feira foi um dia triste para a esquerda portuguesa


De viana a 30 de Novembro de 2009 às 22:49
"A proposta do PS tornava menos barato o recurspo pelos empregadores ao recibo verde"

Então com explica isto?

http://economia.publico.clix.pt/noticia.aspx?id=1406022

"As medidas de política activa de emprego previstas no novo regime de descontos para a Segurança Social não representam um efectivo incentivo à contratação porque o uso de prestadores de serviços (“falsos recibos verdes”) paga menos encargos sociais do que trabalhadores contratados.

Esta declaração que escandalizaria os responsáveis do anterior Governo, não veio de nenhum dirigente sindical, mas de um dos peritos da firma de advogados PLMJ – AMPereira, Saragga Leal, Oliveira Martins, Júdice e Associados, que ontem apresentou os “aspectos fiscais” do novo regime de descontos para a Segurança Social, num seminário organizado para empresas pela PLMJ e pela multinacional Mercer, realizado num dos grandes hotéis da capital."

Será que estes advogados são estúpidos ou estão a soldo do PCP e CGTP?...


De A Regra do Jogo a 2 de Dezembro de 2009 às 00:58
A objectividade é uma arma poderosa para afastar a demagogia e este post do Carlos Santos é muito claro.

Há muitos anos que todos percebemos que as frases feitas e foneticamente arredondadas são um instrumento demasiado fácil para ajudar a mobilizar vontades menos informadas.

Lamentável, na minha modesta opinião, é não informar devidamente quem poderia beneficiar de instrumentos como por exemplo este Código Contributivo e ainda cavalgar descontentamentos induzidos.

Que palavras de ordem irão os partidos da oposição adoptar para explicar que votaram contra o combate à fraude e evasão contributiva por parte da entidade patronal, que votaram contra a penalização dos contratos a prazo e que votaram contra o combate aos falsos recibos verdes?

Aguardemos...



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