Quarta-feira, 4 de Novembro de 2009

As previsões de Outono da Comissão Europeia lançaram o esperado alarmismo sobre diversa opinião económica. É certo que houve uma redução na previsão da contracção do PIB (de -3,7% nas previsões de Maio, para -2,9%), o que nos coloca a convergir com a média da zona Euro este ano. E é certo que este indicador é coincidente com a previsão dos quatro maiores institutos germânicos de investigação económica. Diferente é o facto desses quatro institutos preverem a convergência da economia portuguesa com a média da zona Euro também em 2010, coisa que não sucede nas previsões da Comissão. A nossa taxa de crescimento seria em 2010 positiva, mas inferior à média comunitária: o que resulta de uma previsão de 0,3% contra uma previsão de 0,8% desses quatro maiores think tanks germânicos.

De onde vem a diferença? De toda a parte. Não há bolas de cristal em economia, e uma variedade de modelos e métodos podem ser usados para previsão. Em particular, se alguma coisa aprendi no BCE, foi que as previsões comunitárias tendem a ser mais politizadas. O que me leva a ter maior fé nas previsões de think tanks ou nas do FMI. Todas mais optimistas para 2010.

A diferença não é negligenciável. O Relatório do Banco de Portugal de 2008 estima em 1% a taxa de crescimento do PIB necessária para induzir criação de emprego em Portugal. As previsões dos 4 maiores think thanks estavam substantivamente mais próximas desse limiar de 1% do que as da Comissão.


Em todo o caso, os cenários alarmistas que se geraram surgiram no domínio da necessidade de, encetada a retoma, se arrancar com um processo de consolidação orçamental em 2011. Tendo em vista a reposição de valores compatíveis com o Pacto de Estabilidade de Crescimento. O risco, seria esse processo de consolidação orçamental fazer despoletar um novo ciclo recessivo, com aumentos salariais moderados na função pública, e os concomitantes efeitos de demonstração no sector privado. Algo próximo da tese da recessão em W de que se chegou a falar.

Pessoalmente, tendo a pensar que estes cenários se esquecem de que estamos a falar de um mundo novo. A taxa de desemprego é a variável chave: mais de 20% prevista para 2011 em Espanha, 10% em França, mais de 9% na Alemanha. O agravamento do desemprego nestes países, e a persistência de valores elevados durante 2011, arriscam a tornar verdadeiras, na ausência de almofadas sociais, as previsões mais catastrofistas do Wall Street Journal para a Europa, com o eclodir de motins sociais.

Dir-me-ão que as almofadas sociais existem, e que foram reforçadas com a crise. Precisamente. Por isso, as previsões do Wall Street Journal relativas a essa conflituosidade, no Verão de 2009, não se verificaram. O modelo social europeu, que tinha sofrido múltiplos enfraquecimentos nos últimos anos, foi reforçado em tempo de crise. 

O desafio é de sustentabilidade política mais do que orçamental: o que a UE deverá decidir é se pretende seguir um caminho de consolidação de contas públicas a partir de 2011, cortando nessas almofadas sociais e arriscando um nível de conflituosidade social elevado: a Espanha não suportará três anos de desemprego a rondar os 20%; a sociedade francesa tem uma tradição de revolta social que o desemprego só poderá agravar; a Alemanha não está preparada com as concessões que Merkel está a fazer ao FDP no caso de uma escalada do desemprego. Em alternativa, a UE tem duas vias que me parecem inevitáveis e complementares. Por um lado, efectuar nova revisão do Pacto de Estabilidade e Crescimento, pela qual a França anda a reclamar há algum tempo, e que constava do programa do Partido Socialista Europeu, suavizando a consolidação. Por outro, a necessidade de tirar efectivo partido do Tratado de Lisboa.

Este último ponto merece uma clarificação. O Tratado de Lisboa confere personalidade jurídica à UE. Até aqui, ela pertencia à comissão. Significa isso que a UE  pode contrair empréstimos e celebrar contratos. A personalidade jurídica que advém do Tratado de Lisboa pode, assim, conduzir a que a UE se endivide para concessão de facilidades aos Estados com maior necessidade de acelerar o crescimento e recuperar o emprego. A taxa de juro suportada seria claramente ponderada pelo risco dos diversos membros da UE, o que significaria um agravamento para a Alemanha e a Holanda, mas uma descida clara para diversos outros países.

Neste processo, a relutância da Alemanha e da Holanda pode ser grande. Mas a pressão interna do desemprego na Alemanha, e a necessidade de recuperação dos parceiros da UE que são os seus principais mercados de exportação, potenciam a pressão sobre Berlim para a aceitação do envidamento da UE.

Em suma, o envidamento da UE e a revisão do PEC podem aligeirar claramente os processos de ajustamento pós 2010. Politicamente, creio ser uma inevitabilidade. O tecido social europeu convive mal com o desemprego, e iria conviver ainda pior com um desemprego menos almofadado ameaçando focos de instabilidade política, mesmo em grandes países da Europa. Haja o bom senso de usar as armas que o Tratado de Lisboa permite.


 

 



publicado por Carlos Santos às 23:35
link do post | entrar no jogo

7 comentários:
De João Galamba a 5 de Novembro de 2009 às 00:13
Totalmente de acordo, Carlos. E eu iria mais longe. Seria paradoxal se se considerasse que Portugal (ou outro país qualquer) tem de investir para garantir a sua sustentabilidade (enquanto economia nacional, e não apenas a parte respeitante à sustentabilidade das suas finanças públicas) ao mesmo tempo que não o pode fazer porque o PEC não o permite. Se tal sucedesse a europa estaria a dizer a si própria, ou melhor, a uma parte dos países que a constituem, que o futuro económico desse mesmos países vale menos do um conjunto de regras — o que poria em causa a racionalidade e a legitimidade, política e económica, do próprio PEC. O PEC não pode ser indiferente às necessidades específicas dos países que compõem a zona euro. Isto implicará, inevitavelmente, algo parecido a um governo económico europeu, isto é, a federalização efectiva da UE. Não sei se será possível, mas parece-me evidente que é necessário


De Carlos Novais a 5 de Novembro de 2009 às 11:05
"Isto implicará, inevitavelmente, algo parecido a um governo económico europeu, isto é, a federalização efectiva da UE. Não sei se será possível, mas parece-me evidente que é necessário"

E porquê parar por aí, vamos logo para um governo mundial. Um que tenha um banco central mundial que possa perpetuar a inflação de crédito para "estimular" a economia e evitando-se assim o incomodo que os cidadãos tenham a capacidade de fugir para outras moedas.


PEC não pode ser indiferente às necessidades específicas dos países que compõem a zona euro. Isto implicará, inevitavelmente, algo parecido a um governo económico europeu, isto é, a federalização efectiva da UE."


Não percebo, pretende-se federalizar com um governo europeu para que cada país possa tratar das suas especificidades?


De Carlos Santos a 5 de Novembro de 2009 às 15:00
Caro Carlos Novais,

Pode-se acusar o BCE de muita coisa, mas seguramente não de perpetuar inflação. Aliás parte do problema actual da Europa decorre da inflation bias do BCE , que tende a ler o indicador de inflação que lhe é mais conveniente. E com isso perpetuar a crise.
Abraço,
Carlos


De Carlos Santos a 5 de Novembro de 2009 às 15:12
João, eu penso que acabará por ser inevitável uma cedência germânica na questão do PEC e dos Eurobonds. Há um colunista no The Times que vem há muito alertando que o modelo de desenvolvimento, que é fortemente dependente das exportações, se pode virar contra si mesmo, se a UE não recuperar, porque parte do mercado de exportação germânica desaparece. E nesse caso, a dificuldade de Merkel seria ainda maior.
O que ele sugeria era uma estratégia concertada dos países para exercerem pressão sobre a Alemanha no sentido da revisão do PEC e da emissão de eurobonds para auxílio à crise. A própria Alemanha sentiria que se os países não investirem para garantir a sua sustentabilidade, como dizes e bem, também não podem puxar o motor das exportações germânicas.
Essa será uma forma de pressão possível, num parlamento europeu com que infelizmente a maioria de direita não facilitará a proposta de revisão do PEC: a não ser que o PPE permita votação de acordo com interesses nacionais. Nesse caso, os votos dos franceses no PPE seriam fundamentais para forçar essa revisão.
A existência de um orçamento comunitário comum parece-me também uma via de progressão, mas é necessário definir em conjunto com o BCE um mecanismo de resposta que não retire mais importância aos governos nacionais. O problema do BCE passa, em parte, por só responder a dados agregados da UE, sendo que esse tipo de lógica prejudica naturalmente, as crises nos pequenos países, que ficam com menos vias de defesa. Um orçamento comum seria uma boa oportunidade de rever os critérios de resposta.

Abraço,
Carlos


De Luís Vicente a 5 de Novembro de 2009 às 11:32
Caro Carlos Santos,

Não duvido do bom fundamento da sua proposta de empréstimo europeu. Não compreendeu é o laço que estabelece com o TL... É verdade que o TL concede personalidade jurídica à UE. Mas não creio que esse fosse o problema, porque a Comunidade Euopeia (e não a comissão, como por lapso escreve) já tinha personalidade jurídica de acordo com os tratados actuais e o empréstimo poderia, se essa fosse a razão, ter perfeitamente sido feito ao nível da CE. O obstáculo, creio eu, é mais de natureza política e o TL não resolve o problema (embora admita que cria um ambinete mais favorável para a sua resolução). No final do seu mandato, o Presidente Jacques Delors já havia proposto um imposto europeu para financiar grandes obras ao nível das redes transeuropeias...e os MFinanças foram contra...continuarão, suponho, a ser contra...aí, em meu entender, é que está o busílis...


De Carlos Santos a 5 de Novembro de 2009 às 15:19
Caro Luís Vicente,

Eu concordo que existe um problema político. Qualquer modalidade de empréstimo numa subida do serviço da dívida para a Alemanha e para a Holanda. Agora, tentar ter Europa sem solidariedade europeia é muito difícil. É uma realidade triste que tenha que ter sido o FMI a acudir a Estados em dificuldade.
Sobre a questão da personalidade da CE, permita-me só um acerto: ela não conferia à CE o direito a contrair empréstimos que a UE terá. Em Maio último, penso, a CE endividou-se de facto para financiar os Estados: no que foi considerada uma antecipação ilegal do Tratado de Lisboa, porque só a UE com personalidade jurídica terá poder para isso.
Carlos Santos


De Luís Vicente a 9 de Novembro de 2009 às 11:54
Caro Carlos Santos,
Desculpe, mas não percebo o que é que a personalidade jurídica tem especificamente a ver com o empréstimo. Porque diz que a personalidade jurídica da CE não dava para tal e a da UE dá? Não creio. A personalidade jurídica é requisito base para praticar quaisquer actos jurídicos do tipo empréstimo, admitamos. Mas, saber se a UE (ou a CE) podem contrair empréstimos, depende das suas competências específicas. Que não creio terem mudado com o TL . Aliás, se o próprio JDelors pretendia a sua realização, não creio que ele pretendesse uma revisão dos Tratados para tal...

Enfim, é um detalhe, que em nada afecta a validade do seu argumento pró-empréstimo público. Só que penso que nada tem a ver com o problema...

Luís Vicente


comentar post

.contactos

correio | twitter | facebook

.mais sobre nós
Regra Jogo ementa especial
.pesquisar neste blog
 
.posts recentes

. PIGS respiraram hoje de a...

. Vídeo Golos: Sporting 1 -...

. Escutas, Falantes & Fixaç...

. Jornalistas e fontes de i...

. Paisagem sem Título, Port...

. Uma e outra coisa

. Culpadas, diz ele!

. Ética?

. O "talvez" de Vitorino di...

. O problema político não d...

. Dois recados da cimeira d...

. Todos pela liberdade !

. Risco de dívida voltou a ...

. Selecção Musical (2): Ne ...

. Palavras sábias, e ironia...

. Petições, Oposição e Situ...

. Video Golos: Belenenses 1...

. Um homem com ambições pol...

. Rir é o melhor remédio

. Miguel Portas dixit

. Notícias que ouvi por ai:...

. Pão e circo

. Dos bloqueios espanhóis à...

. Petição "Todos pela Liber...

. Ano Europeu de Combate à ...

. "Mas o gajo é um dos noss...

. A Europa, esperança para ...

. Nestes dias de desassosse...

. Comunicação Social: Priva...

. O remate final de Marcelo

. Haiti: um olhar português

. Sublinhados de leitura - ...

. Europa do Sul - um rosto ...

. Reacções ao Resultado do ...

. Video Golos: Inter 3- Cag...

.últimos comentários
O ar de crispação do personagem enquanto prestava ...
Fora do estrito campo da análise económica não val...
Vê se logo que o "Srº vmb" é do sporting ... Isso ...
"No meu tempo" chamava-se a isto "jogos a brincar"...
#O apelo aqui feito mete todos no mesmo saco#já co...
Rectificação: um texto em que procuro. Não, procur...
Caro Porfítio, eu lamento que, de facto, um texto ...
Jorge,As mensagens a destinatários "à molhada" é c...
Trata-se de um imposto sobre V. mesmo, está visto.
Venha daí um golpito de estado, Manolo!
.arquivos

. Fevereiro 2010

. Janeiro 2010

. Dezembro 2009

. Novembro 2009

. Outubro 2009

.mais comentados
.tags

. todas as tags

.links
.subscrever feeds
.monitorizações
em linha



sitemeter/consulta

Twingly

twingly/ping
blogs SAPO