Quinta-feira, 5 de Novembro de 2009

Do que tive possibilidade de acompanhar da discussão do programa do Governo, e de análises subsequentes que ouvi, sou obrigado a destacar uma frase do deputado Afonso Candal do PS, que se inspirava no dito anglo saxónico "You´ve been saving for a rainy day? Guess What! It´s raining!"

É sabido que Portugal tem problemas crónicos de balança comercial, e é sabido que tem problemas estruturais de contas públicas. Essa situação não nasceu hoje, não nasceu este ano, não nasceu com este governo, ou com o anterior. É um problema antigo, que já no tempo da AD, quando o Ministro das Finanças de Sá Carneiro, era o mítico mago Aníbal Cavaco Silva, foi tão grande ou tão pequeno que acabou por, em conjugação com outros factores, forçar a 2ª intervenção do FMI em Portugal. Estávamos na primeira metade dos anos 80.

O que não posso de maneira nenhuma concordar é com dois vícios de análise que vejo sistematicamente os partidos da oposição parlamentar a cometer, e uma boa gama de comentadores, designadamente um dos "tudólogos" de serviço, Miguel Sousa Tavares.

 

A prioridade da política económica

O primeiro desses vícios passa por considerar o défice público e o défice externo como as prioridades de política económica. Sejamos claros. A política económica não é uma ciência exacta e não é socialmente neutra. Implica escolhas de carácter normativo, isto é opções por prioridades que são, necessariamente, contaminadas por juízos pessoais e sistemas de valores. Por concepções sobre o tipo de sociedade que pretendemos. Quem julgar que a política económica é asséptica está na função errada. Devia trabalhar em laboratório e não numa ciência que lida antes de tudo com um corpo social.

 

É errado pretender impor ao partido que venceu democraticamente uma contenda eleitoral um menu de prioridades que não são aqueles que o eleitorado sufragou. E o modelo com que o programa eleitoral do PS se apresentava definia um objectivo que é o que está traduzido no programa de governo. Corresponde, ademais, a uma análise que muita gente fez na sociedade portuguesa. O objectivo central da política económica, por razões que resultam da própria necessidade de coesão social, é o desemprego. Sendo claro: a luta contra o desemprego. Como se dizia num manifesto que assinei com 51 cientistas sociais, incluindo actuais deputados do PS, do BE, etc, uma sociedade em que a taxa de desemprego se aproxima de 9% está profundamente fracturada.

Tive oportunidade de citar aqui artigo do Wall Street Journal que previa tensões claras para a UE em função dos níveis de desemprego. Não é possível imaginar que a Espanha se mantenha três anos com taxas de desemprego a rondar os 20%. Não é possível conceber que a Alemanha vá conviver pacificamente com uma taxa de desemprego superior a 9%. E não é admissível sequer supor que uma sociedade naturalmente conflituosa como a francesa vá absorver bem subidas do desemprego acima de 10%. São as "míticas" previsões da Comissão.

A prioridade económica da esquerda

Esta é daquelas questões que permitem, a meu ver, traçar uma distinção clara entre direita e esquerda. Não é possível ser de esquerda e aceitar que a política económica esteja subordinada a outro objectivo que não a descida destas taxas para os seus valores anteriores à crise.

A diferença entre a esquerda democrática e outros programas de esquerda assenta no modo como se tenta baixar a taxa de desemprego. A esquerda democrática reconhece a propriedade privada, a livre iniciativa, e o mercado como principal motor de crescimento. Não se coíbe de definir para o Estado um papel nesse mercado, mas isso era outra discussão. O que me interessa salientar agora é que a esquerda democrática reconhece ao mercado o maior potencial de gerar crescimento económico. E sabe, numa velhinha Lei da Economia, conhecida por Lei de Okun, que é preciso um certo ritmo de crescimento económico para haver criação de emprego.

Numa crise como a actual, em que a economia da zona Euro evidencia sinais de potencial deflação, as decisões de consumo e investimento são adiadas. Por critérios totalmente compreensíveis. Só que a falha do consumo privado, do investimento privado e a quebra das exportações em função da crise internacional, só deixam uma solução: o investimento público e as transferências sociais para as famílias. Ambos representam processos de revitalizar a procura, acabando com o eterno protelar das decisões de consumo e investimento próprio de uma espiral deflacionista potencial.

Há, portanto, aqui uma escolha: ou se procede à política de investimentos públicos (nem sequer estou a discutir quais) que criam emprego directa e indirectamente, disseminando encomendas pelas empresas privadas, e se concedem as almofadas sociais que evitam a ruptura, e permitem a manutenção de rendimento das famílias que sofrem o flagelo do desemprego - o mesmo seja dizer, potenciando o consumo privado, e se aceita que isto implica um agravamento do défice orçamental, para além do determinado pelos estabilizadores automáticos; ou se dá uma prioridade à contenção do défice que necessariamente implica um reforço da dinâmica da espiral negativa de crise. 

O governo tem a legitimidade de ter como prioridade o desemprego. E a oposição parlamentar de esquerda tem a obrigação de apoiar as medidas de política económica conducentes à promoção do crescimento (nosentido conjuntural) e concomitante à retoma do emprego. 

O combate ao défice externo em economia aberta: não respostas do PCP e do PSD

Uma abordagem inteligente da economia obriga a reconhecer que Portugal não pode combater o défice externo com tentativas de copiar modelos de meados do século XX assentes na chamada "substituição de importações". Em traços gerais, esses modelos supunham uma economia que barrava a entrada de certos produtos do exterior para gerar capacidade produtiva nacional. Usualmente subsidiada em estágios nascentes. Se em Portugal isso padeceria de um óbvio problema de escala insuficiente, e da contingência da inserção num mercado único, quando países com a dimensão do Brasil o tentaram acabaram confrontados com a fatalidade da ineficiência na produção de bens transacionáveis, porque estavam imunizados da pressão concorrencial externa.

Há contudo, no espectro político português quem ainda defenda a relevância do modelo de substituição de importações puro. O PCP está ainda convicto de que é desta forma que se pode equacionar o problema do défice comercial. Basta ler esta notícia do Avante, ou passar os olhos pelo que escreve o António Vilarigues.

Mas eliminando a prisão histórica mental em que vive o PCP, há também a ausência de um pensamento estruturado por parte do PSD. No seu programa eleitoral, Manuela Ferreira Leite não apresentou qualquer solução para o défice externo. Limitou-se a referir que era necessário que todos poupassem mais: famílias, empresas e Estado. Convém ter presente que a poupança das empresas são lucros não distribuídos, e que no raciocínio focado no endividamento, essas reservas serviriam para recompor estruturas de capitais fortemente alavancadas pela dívida. De onde resulta o maior dos paradoxos: se o PSD tinha o investimento privado como motor da economia, mas acha que todos os agente deveriam saldar dívidas, com que fundos (a não ser novo endividamento, o que seria paradoxal!) poderiam as empresas  sustentar algum tipo de dinâmica do investimento privado?

A estratégia do PSD não oferecia uma resposta cabal ao problema do crescimento e do emprego. Adicionalmente, dava uma solução estática. Saldadas as dívidas correntes, qual seria o motor da economia? O que impediria que no momento seguinte se voltasse a importar maciçamente?

O investimento estratégico como combate ao endividamento em economia aberta

Parece claro que não podendo fechar fronteiras, e devendo fomentar o crescimento para atingir a prioridade de descida da taxa de desemprego, a estratégia correcta tem de atacar os dois lados do défice comercial: as exportações e as importações. O programa do governo apresenta um conjunto de medidas de apoio à internacionalização das PME exportadoras. Que envolvem créditos fiscais em IRC, apoio humano em tomada de decisões sobre mercados desconhecidos, etc. Adicionalmente aposta na diplomacia económica, o que é crucial quando os nossos tradicionais mercados de exportação estão em crise. Na legislatura anterior registou-se um bom desempenho das exportações em países como Angola, o Brasil e Marrocos. Nesta, prevê-se a prospecção de 15 novos mercados, enquanto não é possível contar com o comércio intra-comunitário.

Ao nível das importações, identifica-se com clareza, na esteira do que já vinha a fazer Manuel Pinho, um problema chave do nosso défice comercial: 53% das importações correspondem a combustíveis. Não dispondo Portugal de recursos naturais nessa matéria, há apenas dois lugares possíveis de acção: o investimento na eficiência energética, isto é na racionalização e poupança no uso de energia, para o qual o programa de certificação de edifícios públicos será crucial; e o reforço da capacidade de produção de electricidade a partir de energias renováveis.

É certo que as energias renováveis, sobretudo a solar, geram electricidade que não é ainda competitiva com a obtida por centrais termoeléctricas. A subsidiação da aquisção de painés solares visa, contudo, canalizar o investimento para este sector. Porque os problemas correntes com as células fotovoltaicas são superáveis com I&D. Para isso é necessária uma política industrial pró-activa, que mediante subsídios e benefícios fiscais canalize o investimento para estas áreas prioritárias.

O que se fez com apreciável sucesso na legislatura anterior em matéria de energia eólica, sendo Portugal hoje um país já com capacidade não só de gerar electricidade por esta via , mas posicionando-se como exportador de aerogeradores e de torres eólicas, deverá também ser feito a nível das células fotovoltaicas e de aproveitamento dos recursos hídricos.

A redução da dependência energética e o fomento das exportações de valor acrescentado são o caminho de redução do défice externo que permite em simultâneo um potencial elevado de criação de emprego qualificado e não deslocalizável.

 It is raining!

O combate ao défice que permitiu terminar 2008 com um mínimo histórico em 35 anos de democracia, permite uma folga que não existiria se os famosos 6% de Santana Lopes subsistissem. Dito isto, a quadratura do círculo é uma impossibilidade. Não se pode ter em simultâneo um combate ao desemprego, ao défice externo e ao défice público. Por isso, a solução proposta pelo PS, e cuja racionalidade económica parece sólida, passa por sacrificar o défice público em nome do emprego e da diminuição da dependência energética. Evidentemente que os subsídios e incentivos associados, e a necessidade de manter a almofada social, levam a que a economia necessite de um agravamento do défice público. Mas para isso, já apresentei aqui os caminhos que o Tratado de Lisboa e uma revisão do PEC permitiriam. Assim haja vontade política.



publicado por Carlos Santos às 22:56
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1 comentário:
De JP Santos a 7 de Novembro de 2009 às 10:16
O défice público e o endividamento externo não são objectivos mas são restrições importantes que não podemos deixar de ter em atenção. Não há nenhuma regra que diga que o endividamento externo não possa esceder x% e mesmo que a houvesse seria sempre uma varável que dependesse das circunstâncias. Mas todos os economistas concordarão (julgo eu) que não é possível manter indefinidamente défices da balança corrente superiores a 10% do PIB e que o endividamento cresça ilimitadamente. A situação das contas extrernas portuguesas pura e simplesmente não é sustentável. E também não é verdade que o problema sempre tenha existido. Embora Porugal tenha registado diversas crises na balança de pagamentos, no fim de 1996 o "endividamento externo" (medido peloa posição internacional líquida) situava-se abaixo dos 10%., tendo crescido exponencialmente a partir desse ano: 18% em 97. Em 2000 atingia 41,1% em 2005 70,2% e no final do 2.º trimestre de 2009 105%. Pior do que isso, desde 2000, Portugal tem mantido desde 2000 defices extremamente elevados apesar da queda do investimento e temos assistido a uma queda da taxa de poupança das familias mas também das sociedades não financeiras (acentuada no utlimo ano em virtude da crise). O último ano é atípico pois a crise conduziu a uma subida da taxa de poupança das famílias mas que em termos globais foi anulada pelo aumento do défice publico. Neste quadro, um aumento sustentado da procura apenas poderá surgir do lado externo e a procura interna terá que crescer abaixo do PIB e tanto mais abaixo quanto maior for o nivel do endividamento e mais elevadas as taxas de juro. Pelo que uma melhoria dos niveis de vida e de consumo apenas será possível se melhorar a sua competitividade. O que num quadro em que não existe o instrumento cambial entre os paises da zona euro (e em que a evolução da taxa de câmbio do euro face às outras moedas não se antevê particularmente favorável ao aumento da procura externa) terá necessariamente que passar por um reforço da produtividade e contenção dos custos (nomeadamente salariais) das empresas, sob pena de o desemprego (na melhor das hipoteses) vir a estabilizar em níveis demasiado elevados.

PS: Talvez não devesse ser tão duro com o PCP. A estratégia de aposta nas renováveis é um exemplo claro de uma estrtégia de "substituição das importações" assente como bem diz numa política industrial "pró-activa" e de subsidiação. E não só não é a unica solução possível para equilibrar as contas externas como, analisando este tema do mero ponto de vista do equilibrio externo, além de se poderem colocar questões relativas à sustentabilidade haverá que ter em atenção os efeitos sobre a competitvidade se essa politica se traduzir em preços de energia mais elevados. Muitos paises não tem recursos energéticos significativos e apesar disso teve contas externas positivas ou proximo do equilibrio. Aliás, a zona euro no seu conjunto teve, em 2007, um superavite externo e os unicos países da UE com defice externo superiores a Portugal (9,8% do PIB) foram a Grécia (14,7%), Espanha (10%), Bulgária (22,5%), Estónia (17,9%), Letónia (22,5%), Lituânia (10,4%) e Roménia (13,6%). E por exemplo países da zona euro como a Bélgica, Austria, Finlandia ou Suécia tiveram superavites externos significativos.


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