Eu sei que é importante lembrar que o muro caiu. A distância do tempo obriga quem se recorda ao dever de lembrar outras gerações do que estava para lá da cortina de ferro. A História tende a ser a demasiadas vezes revista, marcada por saudosismos, e suspeito que sem esse testemunho colectivo em que a blogosfera, da esquerda à direita, se tem empenhado, talvez alguns não se apercebessem da celebração de liberdade que é este 9 de Novembro.
Não consigo, contudo, evitar lembrar que a vitória da liberdade não é a vitória da Europa. O último ano ficou marcado por um divisionismo claro entre o Leste e o Ocidente. Porque o dito Ocidente, ainda e sempre sob a liderança germânica, permitiu que fosse o FMI a intervir na Hungria, para a salvar dos riscos de incumprimento financeiro provocados pela crise do crédito. Porque a famosa case by case decision de ajudar os países de leste afectados pela crise, sugerida por Merkel em Março, levou a Estónia ao limiar da bancarrota, com efeitos sobre todo o conjunto báltico. Porque a França aliciou os seus construtores automóveis em crise a fecharem primeiramente unidades de produção na República Checa, e só depois em solo pátrio. Em suma, porque a UE preferiu conceder verbas ao FMI para auxílio a países do leste em crise, do que agir directamente.
É importante que os povos da Europa celebrem a liberdade. Mas que não se esqueçam que em 2009 foi posta à prova a fraternidade pan-europeia. E essa saiu francamente debilitada. Enquanto a Europa for um conjunto de Estados com interesses divergentes entre si, guerreando-se internamente por poder, a UE é uma construção virtual. O problema é que as raízes históricas da Europa são intrinsecamente divisionistas. O Euro é um objecto político que tenta garantir a não conflituosidade num espaço propenso ao confronto. Os Balcãs demonstraram essa divergência. O Iraque também. As posições da França e da Alemanha sobre o Irão estão longe de ser coincidentes. A Georgia, de Agosto de 2008, mostrou que uma Rússia empobrecida e endividada não é uma Rússia menos perigosa. O Putinism ainda vive.
E a China espreita. Porque há poucas coisas que interessem menos à China que uma UE forte. As divergências internas, a falta de solidariedade a leste, e a imprevisibilidade britânica, agora reforçada com um confuso Cameron às portas de Downing Street, são brindes ao gigante asiático. Aqui tenho de discordar do JNR .Para já, só vejo duas aranhas: Pequim e Washington. Não era pior reflectir, neste 9 de Novembro, sobre a deriva europeia. E para onde queremos ir, se o mínimo múltiplo comum continuar a ser o critério da escolha das figuras que nos lideram. Ninguém na construção de uma Europa unida, fraterna e livre parece ser capaz de aglomerar o mosaico de Estados do velho continente sobre um único "Yes, We Can!". A retórica não vale tão pouco como dizem.
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