Terça-feira, 10 de Novembro de 2009

A estratégia económica do bloco para a retoma do emprego parece reconduzir-se ao seu programa eleitoral. Já aí era claro que o Bloco achava que a resolução do problema de curto prazo se resolvia pela via da reabilitação urbana. Realidade que os levava a repudiar os investimentos públicos de grande escala e modernizadores.

O que mais me surpreende no bloco é a forma como se rodeiam as mais elementares realidades económicas. Um dos poucos exercícios consensuais na economia é a chamada contabilidade do crescimento. Fazê-la não implica sequer aceitar o modelo que lhe está subjacente. E permite identificar a componente da taxa do crescimento do rendimento de um país que não pode ser atribuída nem à acumulação de capital, nem ao aumento do emprego.

Esse "resto", durante muito tempo chamado resíduo de Solow, foi mal tratado pela História do Pensamento Económico. Porque a evidência empírica demonstra que esse "resíduo" é a principal componente do crescimento no longo prazo, na generalidade das economias desenvolvidas. Entre 1913 e 1987 (para cobrir um período longo), esse resíduo, usualmente interpretado como aumento da produtividade total, representou a maior parcela do crescimento em países como a França ou a Alemanha. E, nessa medida, é digno de um estudo autónomo. Porque o crescimento, que pelos vistos depende dessa parcela,  além de gerar emprego, gera rendimento, sem o qual não há uma estratégia de redistribuição e justiça social. Numa palavra, eu poderia dizer que o problema do bloco é que ignora o resíduo de Solow. Ou seja, os factores que conduzem ao aumento da produtividade a longo prazo. A sua estratégia de redistribuição estaria, por isso, condenada a nada redistribuir, por não modernizar o país.

 

Na medida em que se foi ganhando consciência de que esse "resto" da contabilidade do crescimento não podia ser ignorado, foi crescendo a percepção, de que ele não podia ser considerado acidental. E modelos de crescimento que incorporavam além da acumulação de trabalho e capital físico, medidas do capital humano (isto é, dos conhecimentos produtivos gerados na economia e incorporados nos indivíduos), do esforço em I&D, entendido como gerador de processos produtivos mais modernos e de inovação, e da construção e melhoria de infraestruturas públicas (designadamente ferroviárias e aeroportuárias) foram surgindo. O resultado foi que o resíduo de Solow perdeu peso na contabilidade do crescimento. O que significa que estes factores - formação profissional, melhoria das infraestruturas de transporte, aumento do esforço em Investigação e Desenvolvimento - estavam escondidos, e eram os verdadeiros motores do crescimento.

Esta é uma história conhecida na literatura económica e bem demonstrada em muitos estudos. Factores como as infraestruturas e a modernização elevam a produtividade e permitem um maior crescimento. Logo, aumento o rendimento do país, propiciando uma redistribuição mais eficaz e redutora das desigualdades.

O BE tinha obrigação de saber isto. E de saber que se o programa do governo inclui vários esforços de criação de emprego a curto prazo, inclui também um esforço enorme de aposta nesta produtividade total dos factores: desenvolvendo sectores que potenciam a formação de capital humano mais avançado, como é o caso da fileira energética e ambiental, e sectores que apostam na modernização das infraestruturas. O governo não estaria apenas a melhorar o emprego neste ciclo, mas a lançar uma trajectória de crescimento futuro.

A reabilitação urbana, que o PS, subscreve, não tem, como é fácil de intuir, o potencial de elevar propiciar esse crescimento. Porque não é uma actividade que potencie ganhos tecnológicos na produtividade total dos factores, ou que exija capital humano bem qualificado.

Além disso os números da economia portuguesa mostram que o sector da construção (de que a reabilitação é apenas uma minúscula parte), não é responsável por mais de 8% do emprego.  Em boa honestidade intelectual, não se percebe como pretende o BE, partindo desta base, combater um desemprego de 9%. Há realidades incontornáveis, e simplesmente, a reabilitação, como os números demonstram, não tem todo esse potencial.

 



publicado por Carlos Santos às 10:07
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