Segunda-feira, 16 de Novembro de 2009

 

João Rodrigues (JR), do Ladrões de Bicicletas, a propósito do fim das taxas moderadoras no internamento e na cirurgia de ambulatório, escreve que "agora só falta acabar com as outras taxas no SNS. Eliminar os mecanismos que tomam os cidadãos por predadores. Romper com a herança liberal de Correia de Campos".
Um ponto é concordar que foi tolice do governo do PS introduzir "taxas moderadoras" em "consumos" que não são susceptíveis de serem moderados, pelo menos por vontade própria de quem paga. E aplaudir a correcção.
Outro ponto, de natureza mais geral, é o ataque de JR a todas as taxas moderadoras com base numa certa metafísica da natureza humana. JR parece acreditar que as pessoas são naturalmente cooperantes, cuidadosas com o bem público, atentas às consequências dos seus actos no plano dos mecanismos colectivos, altruístas e esclarecidas acerca do próprio funcionamento do altruísmo. JR parece acreditar que quem não tenha essa visão da "essência" dos indivíduos em sociedade só pode estar a tratar os cidadãos como predadores.

Também sou dos que pensam que os cidadãos não devem ser basicamente tratados como máquinas de estímulos, disponíveis para as receitas de "incentivos" que os economistas gostam de cozinhar. Também sou dos que acreditam que a melhor forma de avançar na melhoria dos laços sociais é investir nos laços sociais enquanto tal, enquanto estrutura de significados. Também sou dos que não acreditam que tudo isso se resuma a prémios e castigos. Contudo, considero perigosíssima a ingenuidade de JR: os mecanismos colectivos são, realmente, muito sensíveis aos verdadeiros predadores. Tal como são sensíveis aos que simplesmente não param para pensar nas consequências das suas acções. Bem como aos que simplesmente não compreendem os efeitos indesejáveis, em termos agregados, de muitas acções individuais aparentemente inócuas.
Não sei bem qual seja a origem da aparente desvalorização destas dificuldades por parte de JR. Será JR um racionalista extremo que acha que os indivíduos puxam pela cabeça até compreenderem o que fazer por puro cálculo intelectual? Será JR um metafísico da natureza humana, que vê as pessoas como naturalmente, ou essencialmente, boas e altruístas? Não sei, mas sinto uma curiosidade crescente pela sistemática abordagem metafísica de certa esquerda ao problema da natureza humana em sociedade. Eu acredito que mecanismos tão imperfeitos como as taxas moderadoras são importantes dentro de um realismo moderado acerca da forma como funcionamos em colectivos: mesmo que sejamos razoavelmente altruístas, e que sejamos determinados mais por valores e por uma genuína implicação na relação social do que por incentivos, precisamos de "sinais de trânsito". Precisamos de marcas que nos chamem a atenção para o significado último de certos actos, cujas consequências não são directas nem imediatas. Precisamos de alertas.
Reflectir nisto é algo que só interessa a quem o bem comum e as suas ferramentas mereçam cuidado. Acredito piamente que JR está nesse grupo. Eu também estou. Mas bato-me para reduzir a carga metafísica de certos pressupostos. E não estou disposto a ser tratado como neoliberal por causa disso. Porque verdadeiramente desastroso para a promoção do bem comum seria transformá-lo numa piedosa abstracção iluminada por uma qualquer metafísica apressada acerca da natureza humana. Especialmente se essa metafísica apressada servir para condenar a priori certas possibilidades de organização colectiva.

 

(também aqui)

 


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publicado por Porfírio Silva às 10:10
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10 comentários:
De João Galamba a 16 de Novembro de 2009 às 11:43
Muito bom


De Paulo Ferreira a 16 de Novembro de 2009 às 12:41
Grande post Porfirio,

Abc


De António P. a 16 de Novembro de 2009 às 14:34
Gostei.
É necessa´rio responder sempre à esquerda metafísica.
Cumprimentos


De Sofia Loureiro dos Santos a 16 de Novembro de 2009 às 21:09
Excelente post, Porfírio.


De Miguel Lopes a 20 de Novembro de 2009 às 13:58
"Será JR um metafísico da natureza humana, que vê as pessoas como naturalmente, ou essencialmente, boas e altruístas?"

Posso saber o que é que está aí a fazer a palavra 'metafísico'?

Cumprimentos


De Porfírio Silva a 21 de Novembro de 2009 às 13:15
Pode, Miguel, pode saber o que está lá a fazer a palavra "metafísico". Está a assinalar uma postura intelectual que atribuiu "essências" ou "naturezas" a certos seres, desligando isso de uma consideração concreta dos comportamentos desses seres, com o efeito de dificultar uma apreciação prática do que eles são "na realidade". É isso que faz lá essa palavrinha.


De Flávio Santos a 21 de Novembro de 2009 às 20:11
A utilização de "metafísico" neste contexto é altamente imprecisa, para não dizer falaciosa. Partimos do pressuposto que a Metafísica, ou Filosofia Primeira, é a disciplina que se ocupa do próprio ser. É, portanto, a disciplina que fornece todos os pressupostos e axiomas dos quais derivamos as ciências particulares.

No máximo, diria que o caro se refere ao Essencialismo Ontológico: avança a proposição de que não existem categorias de ser ou essências das quais a pluralidade de fenómenos humanos derivam.

É bastante óbvio, e tal tem sido provado através da Biologia, que existem categorias de ser cujos fundamentos podem ser objecto de estudo, e categorizados - metafisicamente. Urge, portanto, a utilização da terminologia filosófica de acordo com o propósito que lhe é conferido, e não de acordo com definições estipulativas e arbitrárias.


De Porfírio Silva a 21 de Novembro de 2009 às 20:34
Flávio,
Debater o sentido do termo metafísico é algo que, noutras circunstâncias, me agradaria muito. Teria o maior prazer em tentar mostrar-lhe onde está o equívoco das suas palavras. Acho, aliás, que "equívocos", no plural, seria mais apropriado. Essa tarefa ser-me-ia tanto mais agradável quanto seria oportunidade para fazer a terapia (no sentido de Wittgenstein) que julgo a mais adequada ao tom de pretensa autoridade com que apresenta a sua visão. Contudo, resisto a esses prazeres pela simples razão de que essa discussão tem virtualmente nada a ver com aquilo que aqui está em discussão.


De Flávio Santos a 21 de Novembro de 2009 às 20:59
Mas, meu caro, tem tudo a ver. Certamente poderá apresentar, de forma sumária, onde se encontram os equívocos a que se refere. Metafísico parece ser uma óptima definição estipulativa para 'ingénuo' - aumenta o nível de sofisticação do léxico, apesar de não passar de uma manobra sofista.

Gostaria de ser "metafísico" sobre muitas coisas, tanto quanto gostaria de ser "epistemológo" ou "filósofo da mente" sobre tantas outras.

Já que refere, de forma acessória (mas de forma a estabelecer algo) um nome relevante, gostaria de o remeter para Aristóteles, cujo trabalho de categorização mostra qual é o sentido da Filosofia Primeira - longe de definições estipulativas.


De Porfírio Silva a 22 de Novembro de 2009 às 00:35
Flávio, parece que já se escreveu qualquer coisa sobre metafísica depois de Aristóteles. Mas, mesmo em Aristóteles, metafísico não quer dizer ingénuo. E muito menos eu defenderia essa identificação. Já ficamos razoavelmente bem servidos com o sentido mais literal: meta-físico, para-lá-do-físico.
De qualquer modo, a erudição é muito interessante quando serve para enriquecer um debate que esteja em curso: não me parece que, neste caso, uma discussão "filosófica" sobre metafísica, colocada nestes termos, ajude a esclarecer o que se estava a discutir. E, assim sendo, fico-me por aqui nesta conversa. Se, um dia, voltar a ela, proporei o seguinte ângulo: Karl Popper e a denúncia da má fronteira entre ciência e metafísica.


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