Poderá a percepção de George Steiner de que "este é um dos períodos mais selvagens da História" englobar o binómio que conjuga o voyeurismo social e a ânsia de 15 minutos de fama? Se essa ânsia gera excessos de protagonismo de agentes que não o deviam ter, caindo no insólito de uma conferência de imprensa do Conselho Superior de Magistratura, a verdade também é que só se escreve sobre as guerras da justiça porque há quem pague para ler.
Montesquieu não conhecia o quarto poder. Não é de todo perceptível quem se serve de quem. A combinação da imagem do Primeiro Ministro com uma declaração sobre política fiscal do Governador do Banco de Portugal induz a imputação dessa intenção ao governo. O editorial reitera a responsabilização do poder executivo, nessa subida que se assume inevitável. São ténues as fronteiras aqui: está o quarto poder a ditar uma agenda ao poder executivo? De onde vem a sua legitimidade?
Dir-se-á que o jornalismo se deveria limitar ao espaço público. Sucede que o espaço público foi, ele próprio, redefinido no último século. Quem não se lembra do Relatório de Kenneth Starr e da humilhação, em directo televisivo, de Bill Clinton? O quarto poder limitou-se, nesse caso, a seguir o processo, conduzido pelo poder judicial. A conduta imprópria de um Presidente dos EUA pode, ao que se constatou, ser alvo daquele género de escrutínio. Consensual será também que a ânsia de protagonismo de Lewinsky e Starr se conjugou com o tal apetite voyeur do público mundial, tal a difusão e o número de traduções do relatório. As falhas, gafes , manias ou erros de conduta de qualquer tipo de celebridade no espaço público passaram a ser o prato do dia. Com Kenneth Starr, o espaço público alargou-se à esfera familiar de Bill Clinton e à Sala Oval. Não admira que daí se alargue ao casal TomKat.
Não se trata aqui de alguma vontade em esconder do público a verdade. Sobretudo quando daí podem extraídas consequências e responsabilidades, ainda que simbólicas. O direito à informação esbarra contudo em critérios de relevância editorial. Vende? Acredito. Só que somos reconduzidos à dúvida de Steiner: há outras coisas que também vendem. O medo vende particularmente bem. Mesmo quando apenas no título.
Voltamos ao cão que mordeu o homem. E eu que, ingenuamente, cheguei a pensar que, nesta semana, as notícias dominantes seriam sobre um jogo de futebol!
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